O chamado blackwashing descreve estratégias de comunicação pelas quais empresas projetam uma imagem de compromisso com a igualdade racial sem promover mudanças estruturais em suas práticas. Para explicar o conceito e mapear as táticas por trás dessa prática, foi lançado o estudo “As corporações são, de fato, engajadas na pauta racial?”, elaborado por pesquisadores da organização não governamental (ONG) ACT Promoção da Saúde.
O levantamento de 133 páginas traz uma lista de práticas de comunicação e marketing utilizadas por empresas para construir uma imagem pública de compromisso com a pauta antirracista sem promover mudanças estruturais em suas práticas.
O que é blackwashing
Em tradução livre, blackwashing pode ser entendido como uma espécie de “lavagem” ou maquiagem da imagem de uma empresa em relação à pauta racial para obter lucro. O termo é análogo a greenwashing, usado para descrever ações que simulam compromisso ambiental, e pinkwashing, relacionado ao uso da pauta LGBTQIA+ para fins de imagem.
Os autores do estudo definem o conceito blackwashing como “tática corporativa que instrumentaliza a causa antirracista para disfarçar a busca implacável por lucro”.
Essa prática recebe a crítica de se tratar de uma demonstração de engajamento de pautas de justiça racial, mas que “não enfrentam a questão das iniquidades raciais” de maneira estrutural.
Os pesquisadores mapearam oito variedades de blackwashing:
- Divulgação seletiva – comunicação corporativa enfatiza apenas as áreas nas quais estão buscando uma melhora na performance sobre as questões raciais e não divulga áreas nas quais eles não melhoraram ou até pioraram. Essa estratégia pode ser vista como um “antirracismo de aparência.
- Políticas e reivindicações vazias – implementação de políticas vendidas como uma transformação radical nas relações raciais, quando na verdade há pouco poder para a implementação ou as políticas têm baixo potencial de mudança no status quo.
- Certificações duvidosas – utilização de certificações conferidas por terceiros para promover um produto e/ou uma empresa como benéfico para pessoas negras.
- Apoio e parceria com ONGs cooptadas – associação com organizações que atuam na pauta racial para conferir credibilidade aos esforços corporativos na busca pela equidade racial.
- Programas voluntários sem eficiência – criação e comprometimento com programas e códigos voluntários para promover a equidade racial nos locais de trabalho, com mecanismos de aplicação fracos.
- Narrativas e discursos enganosos – campanhas de marketing com a finalidade de posicionar a corporação como referência antirracista, independentemente do seu histórico nesta área.
- Marcas enganosas – uso de logos, influenciadores e vozes estratégicas para implicar que a marca é antirracista.
- Acessar e influenciar a formulação de políticas – acesso e influência em espaços de tomada de decisão sobre políticas de equidade racial, saúde e direitos da população negra.
Sem representatividade no topo
Ao apontar que algumas empresas têm representatividade racial como fachada, o estudo traz dados de um levantamento do Instituto Ethos com as 1,1 mil maiores empresas do país.
A publicação destaca baixa representatividade de pessoas negras, sobretudo mulheres, em posições de liderança.
Enquanto 55,5% da população se identifica como preta ou parda, esse grupo, compõem menos de 6% dos conselhos das empresas e menos de 14% dos cargos executivos e de diretoria.
O relatório afirma ainda que muitas organizações divulgam iniciativas de diversidade, mas não apresentam informações transparentes sobre a composição racial de seus quadros de liderança.
Os autores do estudo apontam que o blackwashing “não é um desvio de percurso, mas uma peça de engrenagem que mantém a desigualdade racial funcional à acumulação”.
Para os pesquisadores, enfrentar a prática exige mais que denúncias pontuais ou apelos éticos.
“Requer a construção de respostas capazes de incidir sobre a arquitetura que o torna possível”, afirmam.
Fonte: Agência Brasil
